segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Criar com Potência

Na minha corrida habitual, outro dia já na metade do percurso, subitamente ao desfocar meus olhos das reflexões que realizo quando a endorfina me faz estar em contato com o meu mundo subjetivo, vejo vir na direção contrária a minha um rapaz que há muito não o via. Foi um susto, pois há certo tempo ele de um jovem e saudável corredor havia se transformado num mendigo.
Acompanhei em tempos intercalados com tristeza e incompreensão a gradual decadência desse rapaz. A última vez que o tinha visto estava cercado de papelão na calçada da rua Barata Ribeiro, com calças rasgadas, pés imundos e um olhar amarelado, mas apesar de tudo ainda conservava a aura de alguém que não nascera naquelas condições.
Que alegria senti ao vê-lo saudável com uma roupa de corrida impecável resgatado de não sei qual pesadelo. 
Após essa visão de esperança nos resgates da vida, de imediato, lembrei-me que havia citado na minha aula o conceito Aristotélico de Ato e Potência.
Segundo Aristóteles, pensador grego que viveu em torno do séc. VI antes da era cristã, as coisas podem estar em Ato ou Potência. 
Ato representa aquilo que existe e a Potência o vir a ser de cada coisa. Como exemplo de Ato ele recorre a reflexão sobre a semente de uma árvore que contém o vir a ser e que se desenvolve através do movimento de extração da seiva necessária à realização do brotar e, portanto através desse processo faz surgir aquela vida que parecia inexistente.
A natureza não duvida de si mesma, não sofre das inseguranças e das terríveis desesperanças que o ser humano pode carregar, por isso ela sob o constante efeito dessa inabalável força sempre faz emergir as radiantes primaveras...
Quando encontramos algo quebrado, esta condição do objeto representa a realidade tal como está. Semelhante a quando se quebra um aspecto da realidade de uma pessoa... Mas que só permanece aprisionada na condição comprometida se nenhuma atitude de reformulação for despertada. 
O potencial de modificação se encontra resistente e potente no interior da realidade degradada, como uma semente residente numa fruta passada. Esta semente salta ao futuro se a pessoa se responsabilizar em submeter a realidade deficitária ao movimento de restauração... 
Em recente entrevista ao jornal O Globo o neurologista Leonard Mlodinow afirmou que a ciência vem mostrando que aquele que se depara e se enraíza na visão depreciada de sua realidade sem qualquer crença de continuidade possível irá se configurar no rol dos deprimidos e que o cérebro irá demonstrar isso. E, afirma “Porque a vida é dura e, mesmo assim, seguimos em frente. Temos que acreditar nos nossos talentos, nas nossas capacidades para ultrapassar todos os obstáculos que irão surgir inevitavelmente.”.
Quando olhamos um carro amassado por um acidente, a ruína pode ser transformada pela potência da decisão e do movimento de reconstrução. Acidentes de percurso amassam nossos sonhos, ou nossas relações afetivas, ou mesmo nossa saúde. Olhar para estas condições é olhar o Ato Aristotélico de constatar uma realidade comprometida. Será a abertura para a percepção de que pode ter-se uma nova realidade construída a partir da atual é que fará despertar a força em uso... A partir dessa alavanca de percepção e decisão que tudo na vida humana pode ser transformado.
Há um filme da década de 90 que se chamou O Pescador de Ilusões – The Fisher King – que discorre sobre a redenção de dois homens.
Na história o ator Robin Williams interpreta Parry um ex-professor de história medieval que vive em um mundo da própria imaginação a fim de isolar-se de uma tragédia do passado.
Quantas vezes percebo pessoas que se tornam um pouco sideradas para fugirem de um aspecto da realidade que não aceitam e que por isso se esmagaram na pedra pela falta de potência em se perspectivar com transformação para o futuro.
Há também no filme o ator Jeff Bridges que interpreta Jack Luca que é um homem que sempre conseguiu olhar a vida apenas a partir do topo do sucesso, mas a arrogância como um radialista conhecido desencadeia um incidente que o leva a uma queda vertiginosa na carreira. A partir daí sem dinheiro e sem perspectivas se vê arrancado do seu sentimento ilusório de imunidade diante das tragédias.
Quantos pensam que o poder os exclui das perdas, das dores e dos fracassos afetivos. Quantos se tornam displicentes com o que fazem se calcando numa ilusão de imunidade permanente...
Quantos Jack´s se destroem pela displicência em tomar conta e preservar a lucidez quanto à efemeridade das realidades...
O encontro de um com o outro pelas ruas e a amizade que constroem tecem uma mistura de humanização e cada um começa a absorver do outro o que falta em si para os recomeços. Jack encontra a ternura e a sensibilidade de Parry e este a resistência de Jack...
Esse filme nos fala sobre a construção de identidades novas através dos encontros de reciprocidade, de amizade e cumplicidade.
Também sobre o tema recomeços vi recentemente o filme Os Belos Dias, uma produção francesa de 2013.
A trama se desenvolve sob a história de Caroline, interpretada por Fanny Ardant, que quando se aposenta não sabe como se perspectivar diante da nova realidade. Depara-se com o “não-ser” que significa estar destituída da habilidade de se sustentar numa realidade.
Quantas vezes uma pessoa se sente distanciada das visões de continuidade...
Quantas vezes uma pessoa na vida acha que a saída inexiste...
Caroline no esvaziamento de uma fase começa a percorrer caminhos e descaminhos até recuperar a percepção do que era essencial a ela e com isso resgatar a possibilidade de desenvolver com calma a capacidade de se sustentar nas escolhas realizadas.
Há sempre uma semente de recomeço em cada realidade.
A vida em ruína é como um apartamento que você visita para comprar... Há que se olhar o potencial do possível.
A Casa Cor reflete bem através das exibições dos ambientes estruturados em tempos recordes, como o projeto do arquiteto Maurício Nóbrega, deste ano, de uma cobertura construída em 30 dias, que há possibilidades de construções do belo e do confortável sobre o esqueleto arquitetônico, quando é lógico se assume sem trégua a intenção de potencializar mudanças...
O Filme francês Os Belos Dias tem como título original O Pacto que retrata perfeitamente o teor daquela história de recomeços... Pois nos apresenta que qualquer acordo com as mudanças se realiza através de um pacto que se estabelece consigo... O pacto do bom futuro...
O pacto de criar os conteúdos do futuro através do Devir a Ser...
O rapaz corredor de algum modo estabeleceu um pacto de se reconstruir para os Belos Dias.
Se foi dada uma oportunidade, ele com certeza a pegou com mãos aristotélicas e se apropriou desse modo do contato com a potência... Saiu da miséria das mentes que são destituídas das riquezas fundamentais. Ao invés de ser pedinte se tornou fornecedor da imagem dos bons possíveis.
Resgatou, se reergueu e voltou ao mundo da potência dizendo a mim e a todos que desejam ouvir que existe sim uma Existência sempre em nós a espera de ser realizada...
Qual ambiente você precisa redecorar na sua existência?
Recorra à mão Aristotélica e a realize.
Mãos a Obra! Crie o seu mundo com potência.
Como escreveu Drummond numa crônica chamada Música no Táxi: Ninguém precisa ser grande em nada, uma vez que cultive alguma coisa bonita na vida.
Para mim, uma coisa bonita a ser cultivada?
Entre tantas, ponho no topo das minhas prioridades: 
Procurar Saber Existir com Sensibilidade e Potência.
E, você?

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

domingo, 13 de outubro de 2013

O Mundo: Exposição Existencial

Outro dia um amigo me enviou uma crônica do Nelson Motta, e o respondi através de uns comentários a respeito. Recebi como retorno este dizer: “O engraçado é que quando recebo comentários cada um responde de uma forma pessoal. Todos querem dizer alguma coisa, mas a forma como comentam está sempre ligada a sua área de atuação. Deu para entender?”.
Além de compreender o sentimento que ele teve a respeito, me levou a pensar que a minha resposta de fato estava sob a ótica psicanalítica.
Pensei também que através da psicanálise podemos pensar todas as formas de narrativas.
Pode-se através dela refletir a política, as formas de governo, a necessidade de líderes, pode-se refletir os filmes, os quadros, as obras contidas numa exposição, as letras de música... Pode-se olhar o mundo com compreensão. 
O pensar psicanalítico me forneceu grandes percepções e trouxe um continuo ineditismo diferenciado sobre o que vivo, o que sinto, sobre o que fazem ou o que se faz. Ampliou minhas perspectivas e definiu minhas grandes mudanças de destinações.
Foi com esse olhar que fui ver a exposição no CCBB-Rio Yayoi Kusama-Obsessão Infinita.
Kusama é considerada uma das maiores artistas pop japonesas. A princesa das bolinhas como é chamada, transpõe para telas, roupas, esculturas e até para corpos nus as formas e as cores psicodélicas que enxerga nas alucinações que ela é acometida.
Kusama sofre de alucinações desde a infância. Nasceu em Matsumoto no Japão em uma família de classe média tradicional e segundo ela, bastante repressora. Desde cedo os transtornos mentais dela se traduziam em arte, mas a mãe destruía os desenhos da filha...
Na entrevista concedida para esta exposição no Brasil, hoje aos 84 anos afirmou: “Por sorte quando eu era muito jovem fui a um psiquiatra que entendia de arte. Desde então eu luto contra a minha doença, embora no meu caso, a cura estivesse em criar a arte baseada na minha doença. Desenvolver minha criatividade foi a minha cura.”
A criação de Kusama a ajudou a canalizar as ideias e manter-se viva. Ela chegou a Nova York em 1957 e lá entrou em contato com artistas como Andy Warhol. Hoje vive o auge da fama internacional e figura como a terceira mulher que mais ganhou dinheiro com o trabalho artístico.
O que seria dela se os desenhos deixassem de ser estimulados e fossem destruídos como a mãe o fazia?
A expressão pela arte ajudou-a...
Diante das dores inexoráveis da vida, ela nos ensina que nos mantemos viáveis através da criação. Criar é uma forma de segurar a pulsão de vida, de exercer a permanência na existência. A arte limitou a loucura que para ela é infinita, mas a segurou e a propiciou em manter-se numa direção e num propósito. 
O que nos segura na existência apesar por vezes das dores, dos destinos delirantes do real? A criação.
O nada a fazer, faz o nada. Concebe o Nada Ser.
Essa ideia sempre fundamentou minha narrativa interior diante dos meus momentos e ela fundamenta a minha fala profissional.
Precisamos obrar com as mãos, pois quem põe criatividade nelas põe sob controle a si mesmo...
Sentir controle sobre tudo é impossível, mas sobre si é absolutamente aconselhável e, portanto razoável.
A arte de Yayoi Kusama ganha os olhos de compreensão. Um significante que fala para quem souber ver sobre a mensagem do significado da sobrevivência apesar das limitações que recai sobre cada um de nós.
Na crônica para o jornal O Globo da edição de 12 de outubro, Paulo Nogueira Batista Jr escreveu: “O que é ser artista? É sentir como conteúdo o que os não artistas chamam de “forma”... E Paulo prossegue: “Nietzsche deixou também uma das mais belas declarações de amor à musica, que pode ser estendida as artes em geral: “ Sem a música, a vida seria um erro, um exílio, um cansaço.”...para muitos de nós, inclusive não artistas a arte é realmente uma necessidade vital. E, representa no fundo como disse Fernando Pessoa, uma confissão de que a vida não basta... Mais do que isto, a arte pode ser uma verdadeira comoção na vida, e conclui... Ela tem o poder de conferir aura e colorido...”
Como afirmou José Castello todos lutamos contra um excesso de mundo que nos sacode.
Cabe a cada um criar uma narrativa pessoal para se orientar no percurso da vida, no cotidiano dela, em cada ontem para o amanhã e como afirmou Stefan Zweig: “Para ir atravessando esse impenetrável hoje.”.
Para qualquer continuidade há que se depositar confiança na ideia que vencer esta longe de apagar, ou erradicar as sensações de agitações internas que cada um carrega, mas é catalisar essa força interna na forma de signos do fazer algo com imersão e profundidade. 
Muitos fazem coisas, mas sem foco, sem entrega e sem vínculo e mesmo sem atribuírem sentido existencial ao que fazem.
Fazem sofrendo ao invés de fazerem crescendo.
Fazer sabendo o porquê, o para que... Fazer para dar prosseguimento. Fazer com lucidez da razão... Fazer com atribuição de esperança.
Na ópera Turandot de Puccini, há um enigma que diz: “Quem é o fantasma que nasce à noite e morre ao amanhecer?”- Este enigma proposto pela princesa Turandot servia para afastar pretendentes, já que ela repudiava a ideia do casar. Um príncipe desconhecido acertou: “O fantasma é a esperança.”.
Nessa ópera a esperança era um fantasma que não sobrevivia a luz da razão e, portanto perdia potência.
Para mim todos aqueles que ultrapassam barreiras funcionam como Alentadores da Existência, que mesmo diante das crueldades, injustiças e sustos do destino preservam a esperança sob a luz da pulsão de vida, sob os abandonos das desistências. 
A idolatria ao sofrimento rouba a dignidade, empobrece a arte existencial.
Cada um fala sobre o viver sob uma ótica pessoal ou como o meu amigo me escreveu, sob o campo próprio de atuação...
Nietzsche pensava a existência e deixou o legado para que pensássemos a nossa, Freud nos narrou a vida do inconsciente e nos orientou a se sustentar nas opções do viver, Yayoi vive através das formas artísticas de seus delírios e nos fala da arte de viver, os compositores letram sentimentos e melodias, os médicos obram saúde, os engenheiros desenham formas para se viver, o ator encarna vidas sobre vidas, os chefes de cozinha fazem a arte de criar sabores para sensualizar a vida, os voluntários humanistas dedicam a existência para viabilizar o viver da humanidade, os pais responsáveis obram através dos filhos o amanhã possível e eu falo o que sei e de como sinto os modos da vida...
E, você?
O mundo se mantém mais interessante quando as pessoas obram com interesse.
O mundo é um contínuo vernissage de nossas expressões...
O que você expõe em sua galeria existencial?

Imagens:
Catálogo Mary Design,
obras de Yayoi Kusama e cena de Turandot.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Incêndios na Alma

Fui assistir no Teatro Poeira a peça “Incêndios” com Marieta Severo que é a protagonista numa montagem excepcional de Aderbal Freire Filho.
A peça, como a própria sinopse define, pode, de fato, ser considerada uma tragédia épica contemporânea. O texto que já encontrou montagens teatrais no mundo inteiro com muitíssimo sucesso, com uma versão cinematográfica que obteve indicação ao Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, é considerado por diversos estudiosos do teatro como um dos mais importantes escritos devido a capacidade de transportar quem assiste a diversos climas que vão desde as reflexões filosóficas até as mais brutais e catárticas atitudes.
Conforme o dramaturgo libanês-canadense Wajdi Mouawad, primeiro a montar este texto, afirmou: “Incêndios não é propriamente uma peça sobre a guerra é, sim, uma peça sobre promessas... sobre tentativas desesperadas de consolo, sobre maneiras de se permanecer humano num contexto desumano”.
A história passa por muitos aspectos.
Contar uma história como afirmou o Mouawad, “Talvez nos obrigue a escolher um início. Talvez o início da peça possa ser marcado pela morte de uma mulher e ela será em breve enterrada e toda a trama se abre a partir dos últimos desejos endereçados a Jeanne e Simon, seus filhos gêmeos”.
Nas linhas do testamento estão os pedidos para que encontrassem o pai deles e o irmão que não conheciam e, ao encontra-los a filha entregasse a carta ao pai e o filho uma outra ao irmão... A partir daí a busca desenrolará todo o novelo dramático da vida de Nawal.
Através dos olhos investigadores dos jovens gêmeos, descobrimos o início do incêndio no destino de Nawal, quando ainda adolescente se vê obrigada pela mãe a abandonar o amor e passar toda a gravidez escondida em casa para quando a criança nascesse fosse entregue ao destino sem mãos acolhedoras.
Nesse momento brutal da personagem de perda sem mortes, mas por interdições diz “Enfiei uma faca na garganta da juventude”.
Nesse momento Nawal perdeu a inocência da infância... Há sempre um momento na vida de cada um de nós que perdemos a inocência da infância pela primeira vez...
Para não se perder nesses momentos de ingressão ao olhar mais árido da vida, devemos estar atentos a reconstrução de sonhos e destinações.
A nova destinação no percurso de Nawal após esta tragédia imposta pelo moralismo é calcada pela obstinação por aprender a resistir e dar seguimento a própria vida através também do propósito de reencontrar esse filho que a obrigaram a abandoná-lo.
Hoje me coloquei estimulado pela peça a pensar sobre o curso que iniciei “Capacidade de Amar- Formas” em que na primeira aula falo sobre a constituição inicial de nosso psiquismo. Para compreendê-la devemos ir até a raiz da nossa formação, na vida intrauterina. Somos no princípio psíquico um nada que se transforma em criatura e passamos nove meses ali naquele dentro paradisíaco sem “incêndios”, numa situação de aconchego e sem esperas, com tudo que precisamos.
Nascer é antes de tudo perder este paraíso, é perder essa sensação de amparo e aconchego que se chama em psicanálise o “trauma do nascimento”.
Nascemos para uma vida plena de riscos, mas igualmente plena de possibilidades internas de se estabelecer modos de prosseguir nela.
Nascemos com uma falta que se instala e todos os nossos movimentos na vida são formas diversas de reeditar um pouco o acolhimento, o aconchego a aceitação e a inserção em um núcleo através dos encontros que podemos realizar.
A nossa falta inicial do que já um dia então tivemos sem exceção, pois todos tiveram esta realidade na vida intrauterina, deve ser compreendida como a mola percursora de estímulos para buscar o encontro com a sensação de acolhimento. Uma busca que nos põe em busca, que nos propicia um sentido e uma direção na existência. 
Portanto quando perdemos por um “incêndio” do destino algo importante para nós, devemos reeditar a força implícita em nosso psiquismo de busca e deixar de lado a vontade de ser buscado... A atitude tem que ser conjugada no verbo na primeira pessoa do singular no “Eu busco”. Se o Antigo Testamento fala que a vida começa pelo verbo, devemos compreender que também para recomeça-la devemos nos inserir no verbo que nos fala de um Eu, na imagem e semelhança da força criadora e mantenedora. 
A desamparada Nawal quando foi obrigada a romper e desistir do rapaz que ela amava e ainda entregar o próprio filho recém-nascido, para conseguir prosseguir na realidade que a acometia, se agarrou ao pedido da avó: “Saia desta cidade. Vá embora. Aprenda a ler, escrever e a pensar”.
Assim Nawal habitou seus vazios com os pedidos internalizados da avó e constituiu um propósito para seguir... Conduziu a si através da comunhão do pedido de alguém. Internalizou um propósito que dava sentido a continuidade. 
Tomei este momento como uma lição de vida definitiva e me reconheci em muitos estágios de recomeços em minha vida.
Ao se perder alguém ou tudo, deve-se colocar uma voz internalizada de presença afetiva orientadora de continuidade, deve-se também aprender a ler os novos caminhos para que se constituam as escritas da direção a seguir e através destas etapas possa então pensar em viver. 
Após um tempo Nawal se transforma na mulher que canta, ao perder de vista a amiga e companheira da busca que cantava. Colocou como disse: “A voz da outra em si” e se fez mais uma vez na solidão ser internamente acompanhada para suportar a sucessão de “incêndios” dramáticos que ocorreram na vida. Tentou apaga-los sempre com o suor da luta em prosseguir.
Pensei ali em meio aquela densidade do texto que as pessoas normalmente têm muito medo dos acontecimentos, mas deveriam prestar atenção em como estão acontecendo diante de si mesmo e em si. 
É uma peça para se pensar...
Pensei nas pessoas que incendeiam os momentos e as oportunidades de recomeços.
Pensei nas pessoas que incendeiam as manhãs, incendeiam as viagens cotidianas...
Pensei também nas que incendeiam as amizades e os bons diálogos...
Há outras que incendeiam a saúde...
Há aquelas que incendeiam a gratidão...
Há as que incendeiam tudo ao redor...
Têm pessoas que não gostam de ver dramas teatrais e não os assistem, mas fazem os incêndios nas próprias realidades sem a construção das portas de emergência...
Você já parou para pensar?
Há sempre uma saída.
Pode não ser a habitual, mas há sempre uma saída de emergência em si a espera de salvar...
Veja bem se já está na hora de apagar algum incêndio...
Como nos rituais de enterro mostrado na peça, joga-se balde de água nos corpos ardidos e mortos.
No corpo subjetivo em chamas que queimam as boas visões das atitudes inteligentes, o que fazer?... Jogue água.
Incêndios?
Apague-os!
Se não conseguir recorra ao corpo de bombeiro para ajudar...
“Da alma em fogo, me sai da vista um rio.
Agora espero, agora desconfio.
Agora desvario, agora acerto.”
Al Berto

Preste Atenção!
Saia das gaiolas que aprisionam e incendeiam o prazer de viver.